Tigre, tigre, que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
Ousou plasmar tua terrível simetria?
Em que longínquo abismo, em que remotos céus
Ardeu o fogo dos teus olhos?
Sobre que asas atreveu-se a ascender?
Que mão teve a ousadia de capturá-lo?
Que espada, que astúcia foi capaz de urdir
As fibras do teu coração?
E quando teu coração começou a bater,
Que terrível mão forjou teus terríveis pés?
Que martelo? Que corrente?
Em que fornalha estava teu cérebro?
Que bigorna te bateu? Que poderosa mordaça
Pôde conter teus pavorosos terrores?
Quando os astros lançaram os seus dardos,
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação?
Fez-te quem fez o cordeiro?
Tigre, tigre, que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
Ousou plasmar tua terrível simetria?
(The tiger - William Blake)
Primeiro Poema No Vazio
Buscava tudo o que havia
de nunca mais encontrar
em sua face macia
em seu leve caminhar,
nas rotas claras do dia
nos verdes sulcos do mar
e de tudo quanto havia
de nunca mais encontrar
restou a forma vazia
suspensa no seu olhar
e a tênue melancolia
de quem não se soube achar
nas rotas claras do dia
nos verdes sulcos do mar.
Carlos Pena Filho
Testamento Do Homem Sensato
E quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.
Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.
Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,
deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.
Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.
Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,
deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.
Imagino o que ela esteja fazendo neste momento
minha doce e andina Rita
dos colmos e cerejeiras silvestres.
Agora que esta fadiga me abate, e que o sangue dormita
como um brandy preguiçoso dentro de mim.
minha doce e andina Rita
dos colmos e cerejeiras silvestres.
Agora que esta fadiga me abate, e que o sangue dormita
como um brandy preguiçoso dentro de mim.
Imagino o que ela esteja fazendo com aquelas mãos,
que em atitude de penitência
costumavam passar e engomar as roupas brancas
que em atitude de penitência
costumavam passar e engomar as roupas brancas
durante as tardes.
Agora que esta chuva está tirando minha vontade de prosseguir.
Imagino o que foi feito da sua saia de renda;
das suas labutas; do seu andar;
do seu aroma de cana-de-açúcar de primavera daquele lugar.
Agora que esta chuva está tirando minha vontade de prosseguir.
Imagino o que foi feito da sua saia de renda;
das suas labutas; do seu andar;
do seu aroma de cana-de-açúcar de primavera daquele lugar.
Ela deve estar à porta,
vendo passar uma rápida nuvem em movimento.
Um pássaro selvagem soltará um grito sobre o telhado;
e, trêmula, ela dirá finalmente, “Jesus, está frio!”
vendo passar uma rápida nuvem em movimento.
Um pássaro selvagem soltará um grito sobre o telhado;
e, trêmula, ela dirá finalmente, “Jesus, está frio!”
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