Deixa eu ver aqui meus planos pras próximas décadas

 O que há de mais nobre e digno da virilidade de um homem do que empregar o mais supremo esforço para transformar filosofia em atitudes do dia-a-dia? Conhecimento em sabedoria. Não, não é pra ser fácil. Haja força. Talvez leve uma vida inteira de busca e insistência, sem resultado no final. 

 Mas eu não tenho mais nada na agenda mesmo, então...

Sabe quando te dá aquele estalo e uma coisa lá do passado começa a fazer sentido?

 Engraçado como algumas coisas vêm ao nosso encontro justamente nos momentos em que parecem ter sido costuradas como uma luva, sob medida, como que propositalmente. Uma vez um professor meu disse que nada na natureza é aleatório. Não sei se concordo ou discordo. Mas vou me lembrar disso. É polêmico, controverso, mas mesmo assim (talvez por causa disso) eu fico saboreando essa ideia como um pedaço de chocolate que se deixa na boca para derreter por si só, apenas esperando o dia em que, casualmente (será mesmo casual?), a conclusão me acertará como um raio direto na cabeça, o chocolate por fim derreta. Pode ser que se prove verdadeira, ou pelo contrário, falsa. Talvez eu esteja sentado num banco da estação, esperando o trem, ou curtindo uma praia. Amanhã ou daqui a dez anos, vinte. A revelação! Pimba! Na cabeça. Logo surgirá uma infinidade de relações com vivências passadas que, até então também sem sentido, ganharão ordem. 

 Vou deixar os eventos irem pavimentando a transição. Aos poucos, experiências vão se encaixar para fazer daquela peça, agora tão estranha e deslocada, parte de um assombroso mosaico novo de cores e formas tão vibrantes que a verdade possa ser lida sob sua luz. Um vitral de liberdade. 
Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama;
que o meu coração seja igual a ti, poente!
descobre em mim o eterno, o que arde, o que ama,
...e o vento do esquecimento arraste o que é doente!


Juan Ramón Jiménez

Morte Sem Fim

Oh, que alegria extrema 
Que avidez em usar o ar que respiramos,
a boca, o olho, a mão. 
Que ânsia penetrante 
de nos gastarmos totalmente
em uma única explosão de riso.
Oh, esta morte insolente,
afrontante que nos assassina de longe,
com o prazer que temos em morrer 
por uma xícara de chá... 
por uma leve carícia.


José Gorostiza