Odisseu a Telêmaco

Caro Telêmaco,
Encerrou-se a Guerra
de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posseidon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.
Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.
Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reveremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.

Iosif Brodskii

Deixa eu ver aqui meus planos pras próximas décadas

 O que há de mais nobre e digno da virilidade de um homem do que empregar o mais supremo esforço para transformar filosofia em atitudes do dia-a-dia? Conhecimento em sabedoria. Não, não é pra ser fácil. Haja força. Talvez leve uma vida inteira de busca e insistência, sem resultado no final. 

 Mas eu não tenho mais nada na agenda mesmo, então...

Sabe quando te dá aquele estalo e uma coisa lá do passado começa a fazer sentido?

 Engraçado como algumas coisas vêm ao nosso encontro justamente nos momentos em que parecem ter sido costuradas como uma luva, sob medida, como que propositalmente. Uma vez um professor meu disse que nada na natureza é aleatório. Não sei se concordo ou discordo. Mas vou me lembrar disso. É polêmico, controverso, mas mesmo assim (talvez por causa disso) eu fico saboreando essa ideia como um pedaço de chocolate que se deixa na boca para derreter por si só, apenas esperando o dia em que, casualmente (será mesmo casual?), a conclusão me acertará como um raio direto na cabeça, o chocolate por fim derreta. Pode ser que se prove verdadeira, ou pelo contrário, falsa. Talvez eu esteja sentado num banco da estação, esperando o trem, ou curtindo uma praia. Amanhã ou daqui a dez anos, vinte. A revelação! Pimba! Na cabeça. Logo surgirá uma infinidade de relações com vivências passadas que, até então também sem sentido, ganharão ordem. 

 Vou deixar os eventos irem pavimentando a transição. Aos poucos, experiências vão se encaixar para fazer daquela peça, agora tão estranha e deslocada, parte de um assombroso mosaico novo de cores e formas tão vibrantes que a verdade possa ser lida sob sua luz. Um vitral de liberdade. 
Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama;
que o meu coração seja igual a ti, poente!
descobre em mim o eterno, o que arde, o que ama,
...e o vento do esquecimento arraste o que é doente!


Juan Ramón Jiménez